A reunião do Conselho Empresarial de Petróleo e Gás da Firjan com participação do Conselho Empresarial de Relações Internacionais, em 26/2, teve como foco os desafios geopolíticos e as perspectivas para os mercados de petróleo e de energia em 2026. O presidente do Conselho de Petróleo e Gás, Emiliano Gomes, afirmou que o ambiente exige articulação redobrada.
“É um ano de grande instabilidade, com um cenário nacional e global bastante conturbado. Ano de eleição é sempre mais curto e mais difícil. É o momento perfeito para retomarmos nossas discussões, porque 2026 vai exigir intensidade e foco”, declarou. Ele citou tensões no Oriente Médio, sanções e incertezas envolvendo Rússia e Venezuela, além da possibilidade de superoferta de petróleo. “O petróleo, como sempre, contrariando expectativas, a produção tem até subido”.
Segundo Emiliano, toda a cadeia do upstream ao downstream pode passar por revisões estruturais. “Essas mudanças vão exigir revisões no setor de serviços, no E&P e no downstream”, alertou. Apesar do cenário adverso, ele ressaltou a posição brasileira. “O Brasil ainda é percebido como um porto seguro para investimentos, um produtor resiliente e de baixo risco político. Mas essa estabilidade é tênue. Se a gente não vigiar e preservar, o dinheiro vai para outro lugar”.
A gerente geral de Petróleo, Gás, Energias e Naval da Firjan, Karine Fragoso, reforçou o papel institucional da federação na defesa da indústria fluminense e nacional. “Não vamos ter indústria se não tivermos engenheiros. Precisamos fortalecer a engenharia para fortalecer a indústria nacional”, afirmou, defendendo o uso do mercado interno como instrumento de estímulo à produção brasileira.
O diretor da MA2 Energy, Marcello de Assis, avaliou que a transição energética perdeu ritmo diante das restrições fiscais e das novas prioridades estratégicas. “Durante a pandemia houve uma tentativa de acelerar a transição, mas muita coisa não está se materializando. Hoje os governos estão endividados e não há solução fácil para financiar essa mudança no curto prazo”, disse.
Para ele, a meta de limitar o aquecimento global a 1,5°C tornou-se “praticamente inalcançável” nos prazos atuais, o que mantém a dependência de petróleo e gás. “Uma redução abrupta da demanda, de 100 milhões para 40 milhões de barris por dia, simplesmente não vai acontecer.” Ele alertou ainda que se houver um conflito mais amplo envolvendo o Irã, o petróleo pode chegar a US$ 90 o barril. (A reunião aconteceu dois dias antes do ataque ao Irã).
O professor Edmar de Almeida, do Instituto de Energia da PUC-Rio, afirmou que a geopolítica da energia passou a operar em “dois campeonatos simultâneos”: o dos combustíveis fósseis e o das tecnologias para a transição energética. “Estamos vivendo a geopolítica do petróleo voltando com força, mas também a geopolítica da transição energética. A política internacional joga esses dois jogos ao mesmo tempo e o Brasil tem condições de se posicionar em ambas as frentes”, disse.
Segundo ele, a crise iniciada em 2021 recolocou segurança energética no centro das estratégias nacionais. “Criou-se um certo realismo: fósseis não são coisa do passado”. Para o professor, a disputa atual é tecnológica. “A China domina o refino de minerais críticos, as baterias, os painéis solares e os carros elétricos.” Ele avaliou que a dependência excessiva pode se tornar questão de segurança nacional. “Precisamos discutir isso sem ideologia, pensando no interesse do Brasil”.
O consultor da Inovatus Consultoria, Luís Mendonça, destacou os impactos da instabilidade global sobre a cadeia de fornecedores. “O mundo em 2026 está à beira de um precipício. Ninguém sabe exatamente o que vai acontecer, mas ficar parado não é uma opção”, afirmou.
Mendonça defendeu diversificação de fornecedores e maior monitoramento estratégico. “Um problema lá fora pode virar falta de um parafuso crítico aqui dentro. E aí você não entrega. Cada empresa precisa agir para garantir sustentabilidade e resiliência no negócio”, concluiu.
Rodrigo Santiago, presidente do Conselho Empresarial de Relações Internacionais, acompanhou os debates e reforçou a importância da articulação institucional diante do cenário geopolítico desafiador para a indústria.
“As tensões geopolíticas e o fator internacional estão sendo inseridos nos planejamentos estratégicos das empresas com uma intensidade e um peso como nunca tivemos antes. Hoje, nenhuma empresa pode se dar ao luxo de ignorar o que está acontecendo no mundo. Nosso objetivo é sintetizar esses acontecimentos e traduzir esse cenário para os empresários”, afirmou Santiago.
Digitech é apresentado aos participantes do encontro
Na ocasião, o diretor-executivo da Firjan SENAI SESI, Alexandre dos Reis, apresentou aos participantes a estrutura do Centro de Referência em Tecnologia da Informação e Comunicação (Digitech) da Firjan SENAI, inaugurado em dezembro.
“É uma unidade completamente diferente. A indústria já não fala mais em 4.0, mas em 5.0, com foco em sistemas sensoriais e integração avançada. O Rio de Janeiro não poderia ficar fora desse ambiente”, afirmou. Segundo ele, o espaço vai sediar, em setembro, um grande exercício de defesa cibernética coordenado pelo Ministério da Defesa.
Alexandre também resumiu o novo contexto global como “ESG 2.0”. “O E é de energia; o S é de segurança e defesa. Todos os países aumentaram seus orçamentos nessa área; e o G é de geopolítica. É isso que está nas mesas dos conselhos das grandes empresas”, afirmou.
Durante a reunião, o representante da Petrobras presente, Wagner Victer, citou o compromisso da empresa com a indústria nacional e o fortalecimento de nossas cadeias produtivas, ressaltando essa importância diante do cenário geopolítico apresentado. Victer reforçou o recente anúncio de que a empresa passará a fazer todas as manutenções de turbinas no país, em empresas localizadas no município de Petrópolis-RJ, e não mais na América do Norte.